jornalista e escritora
MARCIA CARMO
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Os novos turistas brasileiros (Jornal O Globo, 08 de maio de 2012)

2012-05-08 00:00:00
Marcia Carmo

O boom econômico dos últimos dez anos modificou cidades vizinhas do Brasil que passaram a fazer parte do mapa do turismo brasileiro. Bogotá, Lima, Santiago e Punta del Este são exemplos destas mudanças e nova era de aproximação. Nas lojas, nos restaurantes, nas vinícolas e nas discotecas tem sempre alguém falando – ou tentando – falar português para atender o brasileiro. A afirmação “pode falar português” já é um clássico nas conversas não só em Buenos Aires, onde o turismo brasileiro continua em alta, apesar da inflação vizinha. E onde o portunhol, queira-se ou não, marca presença. Os dois idiomas, português e espanhol, nasceram da mesma raiz e várias palavras são idênticas. Mas não sempre têm o mesmo significado. A lista de ‘falsos amigos’ é ampla. Esposas também significam algemas. E pesada uma pessoa mala. É comum ouvir derrapadas como ‘cartón’, para cartão de credito, quando se quer pagar com tarjeta. Nada que comprometa a importância do turismo brasileiro na vizinhança.
Os brasileiros são líderes no ranking de turistas estrangeiros na Argentina e no Chile e também estão entre os principais nos demais países da América do Sul. A valorização do real, as melhorias na infraestrutura das cidades vizinhas e o número de voos deram nessa maior presença brasileira. Hoje, somente entre o Brasil e a Argentina são realizados duzentos e vinte e oito voos semanais, segundo dados das companhias aéreas. Viajando é possível ver de perto que apesar das transformações, são mantidos nichos de identidade – além de desafios políticos e econômicos.
Caso do zigue-zague na trajetória argentina, que ora aplaude a estatização, ora as privatizações e de novo as estatizações. Mas que por atrações como Buenos Aires, Mendoza e a região da Patagônia não para de receber turistas brasileiros, mesmo quando a maquiagem dos preços está cada vez mais evidente. Segundo dados do governo da cidade de Buenos Aires, o crescente desembarque dos brasileiros amenizou a queda no turismo internacional observada entre 2010 e 2011. No ano passado, vieram 3,6% mais turistas brasileiros do que em 2010. E nos dois primeiros meses deste ano chegaram cento e cinqüenta e cinco mil turistas – 6% mais que no mesmo período de 2011. Os viajantes dos países da América do Sul respondem por 52% das visitas a Buenos Aires. Deste total, o Brasil representa 47,5%.
Alguns chegam aqui e ficam surpresos porque não encontram os sinais da crise argentina. Ela não é visível na primeira impressão. Os cafés e restaurantes estão cheios, os vinhos cada vez melhores e caminhar é uma das marcas desta cidade amigável. Mas velhos pequenos golpes como cédulas de pesos falsas e taxistas que dão voltas na cidade antes do destino final continuam em voga.
É como se houvesse um divórcio entre as incertezas políticas e a alta qualidade de vida em Buenos Aires – a melhor da América do Sul, junto com Montevidéu, segundo a consultoria internacional Mercer, e a melhor da América Latina, de acordo com a revista britânica The Economist. A economia argentina cresceu cerca de 7% anual durante quase os últimos nove anos, mas a inflação, o controle de dólares e de importações não parecem pintar bem para o país. Dados da Cepal mostraram que em 2011 o Brasil ficou na liderança do fluxo de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) e a Argentina quase na lanterninha. No Chile, a questão é outra. Os investimentos chegam mas a popularidade do presidente Sebastián Piñera não decola. E apesar da fama de comportado e organizado, também ali é preciso estar atento aos taxistas que enrolam turistas distraídos.
Países antes marginais do turismo brasileiro e dos investimentos estrangeiros, como o Peru, agora estão em alta. Como disse o escritor peruano Mario Vargas Llosa, no artigo ‘O sonho de um chef’, ele não acreditaria se, há alguns anos, alguém tivesse dito que um estrangeiro realizaria uma viagem de turismo gastronômico ao país. Mas, observou, isso está acontecendo. As delícias peruanas atraem especialistas da França, da Colômbia e da Argentina, por exemplo. Com um porém – restaurantes mais simples têm problemas com a qualidade da água, como alertou a Sociedade Peruana de Gastronomia, Apega.
No Peru e na Bolívia, é comum encontrar jovens viajantes brasileiros lívidos quando descem dos ônibus (às vezes lotações) após a aventura de viajar nas estradas destes nossos vizinhos. Motoristas imprudentes e estradas mal sinalizadas marcam estes caminhos. Nestes países e na Colômbia, melhor táxis contratados pelo hotel ou aviões. Na Colômbia, nos últimos anos, segundo analistas, a guerrilha foi “empurrada” para a selva. Mas diplomatas estrangeiros ainda preferem o deslocamento aéreo, por precaução. Recentemente, num anúncio do governo colombiano na CNN uma brasileira falando espanhol com sotaque dizia: “Na C



8/5/2012
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